Ando cansado desta vida

Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho. Fim-de-semana, fim-de-semana. Vira o disco, toca o mesmo. Às vezes pergunto-me porque não nasci num berço de ouro. Ou então num berço de caca. Sim, porque só há dois tipos de pessoas com vidinha santa: os ricaços e os pobretanas. Aposto que se tivesse nascido no Bronx, no Alemão ou na Rocinha, já tinha chegado a casa há muito mais tempo e que amanhã não tinha que me levantar às 8 da manhã para ir trabalhar. Enfim, vidas santas, é o que é.

Where’s the sunshine?

Ainda me custa a acreditar que vem aí o tal fim-de-semana de verdadeira primavera. A temperatura até se vai portando bem, agora esta chuva é que não está com nada. Bem agradeço que venha o bom velho sol, que amanhã quero pôr a bicicleta a romper pneu pelo monte fora, de preferência debaixo do manto amarelo que só o sol sabe proporcionar.

Bom fim-de-semana, mes amis!

E agora que se foi a Dama de Ferro?

Agora a nossa Thatcher, ou a Manuela Ferreira Leite para quem não pescou a comparação, é oficialmente a rainha da laca no mundo da política. Isto são grandes notícias, mesmo depois do nosso “Hot Jesus” a fazer furor em Hollywood.

E mais, só não ocupa ainda o lugar cimeiro entre o grupo das mulheres na política que se esforçam por ser ainda menos atraentes que o Paulo Portas aos olhos de um homem heterossexual porque há sempre a nudista Merkl para marcar posição. Um amor, ela.

Ainda sobre a baronesa, e agora mais a sério, esta situação é (mais uma) prova que a morte melhora significativamente tudo o que fizemos em vida. Afinal de contas… Toda a pobreza, toda a desigualdade social e toda a política insensível que passeou no seu governo neoliberal no Reino Unido deixaram agora de ser mencionados em tempo de antena, em virtude das “qualidades de liderança”, do “punho de ferro”, “da determinação” e da “recuperação económica britânica”, entre outras expressões admiráveis, que operou de forma convicta e exemplar.

Portanto descansa, nosso Gaspar. Também haverá um lugar no céu para ti. E um dia vais ser anunciado com palavras doces, como “o ministro que nos fez regressar aos mercados em 2020″ ou um “homem determinado”. Mesmo que nos afundes na merda de um neoliberalismo que destruirá o nosso sistema de Saúde, mesmo que transformes de novo a Educação numa coisa lá das elites e sim, mesmo que nos ponhas a todos a pedinchar emprego por essa Europa fora como saltimbancos de uma qualquer espécie inferior. Mesmo assim. Um dia vais ser aplaudido, nosso Gaspar.

Moody way

(Atticus Fetch) How do you do it Hank? The woman you love is out there, and you know you can’t have her. How do you even get up in the morning…?

(Hank Moody) Well… Booze is always helpful, and so is the art. Everything i write is for her or about her, so i’m with her… Even when i’m not.

Toca a campaínha

- Boa tarde, posso ajudar?

- Err… Vinha cá a ver se me carimbava aqui o papel para o desemprego, a mostrar que vim cá procurar trabalho!

- Ora muito bem, então o senhor precisa de trabalho, não é verdade?

- Err… Trabalho não, preciso é do carimbo. E da declaração.

Ainda perguntam o que há de errado com este país?

Parolões, pá!

Reparei esta semana que a blogosfera, o facebook e o twitter se levantaram em protesto (dizem que está na moda) contra este vídeo do Turismo de Portugal, que enaltece uma das nossas nobres características, a hospitalidade. Por falta de tempo ou oportunidade, só consegui atirar-lhe os olhos hoje.

Pois bem, parece que público em geral e bloggers em particular acham que isto é um incentivo à subserviência e à criadagem. Como se houvesse algo de mal em fazer bem o seu trabalho (no caso de quem é pago para o fazer, nomeadamente empregados de mesa, guias ou professores de surf) ou simplesmente entrar numa de se entreter com um grupo de estrangeiros, como fez ali no caso a Ana (por onde andam as Anas desta vida quando eu estou perdido?), que levou os gajos a sair? Mas que possível forma de subserviência pode advir disto, senhores? Não que tenha particular razão de queixa – tirando um ou outro caso sempre fui bem tratado por onde passei, mas ainda assim quem me dera a mim encontrar gente como a nossa de cada vez que saio do país. Neste caso em especial, onde muita gente vê ‘rameiras’, ‘gigolos’ e ‘criados’, eu vejo tratamento personalizado e especializado, perfeccionismo e brio. Ok, talvez a cena do beijo fosse escusada, mas ainda assim entende-se bem o propósito.

Entendo honestamente que neste ponto uma tal crise (a de valores, não a financeira) que atravessamos nos tolda a visão, nos enche de complexos e nos faz sentir inferiores aos outros. Noto isso no futebol, porque o craque que vem de fora é à partida melhor que o que é nosso. Noto isso no entretenimento e nas artes, porque se a banda é inglesa então é automaticamente melhor que estes portuguesinhos a brincar aos instrumentos. Noto isso no turismo, porque se for uma aldeia escocesa é lindíssima e cheia de força espiritual mas se for uma aldeia de Trás-os-Montes é velha, aborrecida e saloia. Nota-se em tudo. O português quer ser ‘big’, quer ser ‘awesome’ e quer ser, basicamente, a merda de um americano. Não quer ser português, porque ser português é parolo, é pequeno, é ter pouco impacto. Por isso renega aos seus valores básicos, recrimina quem os reproduz e aponta o dedo a quem faz algo pela alma portuguesa, porque é um parolão que se vê logo que não sabe como fazem os franceses e os alimães e os suiços, fora no Luxamburgo que aí é que é. Nós aqui é que somos uns parolões que não sabemos mais e pronto, cá andamos.

Deixem-se de merdinhas, a sério. Somos portugueses. Não temos que aceitar lições de ninguém, rebaixamento de ninguém nem humilhação de ninguém. A nossa história é maior que a de qualquer nação mundial. Portanto vamos lá saber estar à altura dessa história e à altura de quem (ainda) nos procura. Vamos fazer jus ao que dizem de nós e ao que procuram em nós, porque nós sabemos fazê-lo como poucos.

Boa comida, check! Sol, check! Gente bonita, check! Hospitalidade… Check.

E o “para sempre” é mesmo para sempre?

Marina Abramovic é uma artista plástica e performer, por sinal bastante conhecida e bastante controversa. Ulay é também um artista plástico e performer, sobretudo conhecido pelos anos em que passou com Marina.

Nos idos 70s, Marina conheceu, namorou, trabalhou e viveu com Ulay, com quem partilhou 13 anos de performances artísticas e de amor, vivendo ambos numa carrinha mundo fora. Um dia decidiram tomar rumos diferentes, tendo por então acordado entre si percorrerem a Muralha da China, começando um em cada extremidade até se encontrarem a meio, para partilharem um último abraço e seguirem as suas vidas. Depois de 2.500km percorridos, cada um, lá se encontraram a meio, cingindo-se apenas a partilharem um “adeus” para sempre.

Já em 2010, e quando Marina é já muito famosa e admirada, o Museum of Modern Art de Nova Iorque exibe uma espécie de best of da sua obra. No local, Marina partilha um minuto de silêncio com cada pessoa que se sente a sua frente. Inesperadamente, e sem o conhecimento de Marina, sentou-se Ulay.

E então, aconteceu isto. A carga emocional sente-se, transmite-se e materializa-se como uma agulha afiada furando à face da pele. Um momento tremendo.

Ou é de mim…

Ou esta merda do Harlem Shake vai ser uma epidemia ainda pior que a treta do Gangnam Style. Boa cena, vamos lá abanar o corpo como se estivéssemos a sofrer um ataque epiléptico. Muito boa cena. Divertidíssimo. Encantador, refrescante, admirável.

É uma merda. Chamem-me serious cat, chamem-me chato, mas continua a ser uma merda.

Perguntas e respostas: edição marfim

No seguimento deste post da Lia, pus-me a reflectir um pouco sobre relações, gajas, vidas e casamentos. Diz então a querida Lia, a certo ponto, que é invadida por algumas perguntas aparentemente sem resposta. Aparentemente. O bravo Primo vai responder, sim?

 

Pergunta nº 1: Ter uma relação extra com alguém não vai fazer com que eu relegue o meu marido para 2º plano?

Não. No máximo vai fazer com que ele possa apanhar uma rádio da Nova Zelândia ou que possas usá-lo como estendal. Julgo que o marido não fica necessariamente para 2º lugar – pode até vir a ganhar com isso – o que fica definitivamente para segundo lugar é a relação, o compromisso que assumiram um dia. Costuma dizer-se que “coração que não vê é coração que não sente”, e se ele nunca chegar a saber de nada, nunca se sentirá de forma alguma prejudicado. Quem morre mais um pouco é o compromisso, o respeito. E a nisto a consciência a dar de si, a cada passo. E o medo de ser descoberta, quando reparas que deixaste pontas soltas e começas a entrar em paranóia.

 

Pergunta nº 2: Em que é que isso vai apimentar a minha relação?

É a velha teoria da massa e do arroz, never heard of it? É como passares anos a comer arroz, podes até adorar arroz mas “que bem que te sabia uma massa” depois de tanto arroz… Até voltavas a comer arroz com mais vontade do que nunca. Capisce?

 

Pergunta nº 3: Será que estamos tão mal de valores que precisamos de trair para nos sentirmos bem?

Infelizmente não me parece que alguma traição faça quem quer que seja sentir-se bem, a não ser que seja por vingança ou que parta de alguém que não recebe amor e bons tratos de quem é suposto receber. Mas nem assim me parece realmente positiva. Há realmente alguns benefícios (essencialmente carnais) a obter de um pulo na cerca, mas bem-estar não me parece um deles.

 

Pergunta nº 4: Vivemos numa sociedade tão cheia de tabus que não sejamos capazes de CONVERSAR com a pessoa que temos ao nosso lado e dizer-lhe o que está mal e precisa de mudar, mas temos coragem de sair dos limites?

Vivemos na sociedade do descartável, na sociedade da fast food e da obsolência programada, na sociedade do ego – egoísmo e egocentrismo. Como li aqui há tempos, “é sempre mais fácil comprar novo que reparar”. Já ninguém tem paciência para reparar. E isto, minha amiga Lia, é isto que está mal na sociedade e nas pessoas. Já ninguém tem tempo para nada, ninguém tem tempo para trabalhar a relação, ninguém tem tempo para sentar e conversar sobre a relação, ninguém tem tempo para uma foda com calma, sem relógios nem compromissos. Então quando alguma coisa se estraga, nós compramos novo. Não arranjamos, não reparamos, não tentamos perceber qual é o problema. Encostamos aquela merda, estragada, e começamos a usar o novo que realmente funciona e é tão mais porreiro e funcional. Até que chega o dia em que começam a aparecer os defeitos neste novo, que afinal também os tem, e deixa de ter piadinha. Raio de comando da TV, não dá sequer para ir ao teletexto. Ou que eu tinha antes, esse é que era porreiro. Mas avariou e deitei-o fora…

O Ponto da situação

- Ontem foi dia de S. Valentim, e passei o dia a vomitar – um vómito por cada vez que entrava no Facebook. Tanta bacorada, tanta hipocrisia e tanto show-off que quando dei por mim até cuspi uns quantos arco-íris.

- Hoje é sexta-feira, mas como só comecei a trabalhar na 4ª nem parece fim-de-semana.

- Estou em posição de ruptura de stock de livros, coisa que odeio. Funciona mais ou menos da mesma forma que com o tabaco: quando tenho até pode nem me apetecer; quando por alguma razão não tenho, dá-me um apetite feroz e imparável (acho que isto terá algum nome bem recortado e bem polido nos cadernos da Psicologia,  enquanto não descubro qual, considero apenas aquilo a que me habituei a chamar “um parafuso a menos”).

- Hoje sinto-me extraordinariamente bem. Isto porque vim vestido todo de preto, coisa que adoro. Nunca vos disse, mas tenho um alter-ego que é inspirado no Corvo do Brandon Lee. Um dia apresento-vos.

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