Monthly Archives: Novembro 2012

A propósito dos suíços

The Swiss have an interesting army. Five hundred years without a war. Pretty impressive. Also pretty lucky for them. Ever see that little Swiss Army knife they have to fight with? Not much of a weapon there. Corkscrews. Bottle openers. “Come on, buddy, let’s go. You get past me, the guy in back of me, he’s got a spoon. Back off. I’ve got the toe clippers right here.

Jerry Seinfeld

 

Acho que os suíços são porventura o povo mais invejado do mundo. Ter um exército com melhores gadgets que armas diz muito sobre um país, e sobre a sua forma de estar e ver o mundo.

Acreditam no civismo. Na honestidade, também.O que há de realmente bom nos suíços é que acreditam neles próprios, na sua bandeira, acreditam nos seus sistemas e nos seus princípios. Mesmo que não estejam em sintonia, assumem a sua diferença. Acreditam no seu sistema bancário e na sua moeda, o suficiente para mantê-los isolados do resto do mundo ocidental.

Acreditam nas suas tradições, também. Nos seus queijos e chocolates, dos melhores do mundo. Nos seus canivetes, os melhores do mundo. Acreditam nos seus relógios, os melhores do mundo. Aliás, os relógios suiços são um trademark tão forte que as marcas americanas se mudam para a Suiça, para poderem dizer que o seu relógio é “Swiss Made”, como aconteceu no caso da Hamilton.

Talvez um dia possamos, nós portuguesinhos-desenrascados, assentar a nossa cabeça no sofá e pensar que também nós temos as nossas trademarks valiosas. Os produtos algo explorados – pastel-de-nata, vinho do Porto, cortiça, até os sabonetes. Os menos explorados – vinhos do Douro ou Alentejo, a cerâmica e olaria, os linhos, os trajes e peças artesanais regionais do Minho, do Alentejo, das Beiras. A nossa gastronomia, sabores de tantos anos a bem cozinhar e bem comer. E devemos pensar nisto numa óptica de exportação, mas também de atracção.

Irrita-me que se pense e se promova institucionalmente o turismo português apenas na ideia do “All-Garve”, onde se pode comer e beber barato, jogar golfe barato e ir para a praia. “Então e cultura?” – diz o pessoal por essa Europa fora – “Então e cidades como Lisboa, Coimbra, Porto, Braga, Viana do Castelo e zonas como o Douro Vinhateiro ou as planícies ribatejanas, não têm nada para oferecer?” – perguntam. Todos nós sabemos que sim – ou devíamos saber. Mas não oferecemos, não convidamos. E se não convidamos, poucos ou nenhuns aparecem.

Portugal, mais que uma crise económica, atravessa uma crise de valores e uma crise de identidade. A globalização fez fervilhar o interesse por tudo o que é estrangeiro, por tudo o que não é português. O português é parolo, é saloio, não fica bem na fotografia social. Ir visitar a província de Champagne é giro, ir visitar o Douro Vinhateiro é parolo. Andar a cavalo no Ribatejo é saloio e embaraçante, mas andar a cavalo noutro país qualquer é uma experiência única. Ir visitar as aldeias transmontanas não é facebook material! Mas ai se fossem aldeias croatas ou austríacas… Era um álbum no facebook, café em casa para mostrar as fotos aos amigos, e relatos consecutivos durante semanas a fio. Porque toda a gente sabe que no estrangeiro é que estão as coisas boas e as coisas interessantes.

Se o Pão-de-Ló de Ovar fosse francês, havia cá gente disposta a pagar 50 ou 75 euros por um, não duvidem disto. E se o Vinho do Porto fosse francês ou inglês, meus amigos… Era ouro. Pois bem, assim é só prata… “É bom, mas há melhor…”

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Porque já todos tínhamos saudades

Dos posts sobre comida: Arroz de Pato ou Salmão Grelhado? Hum?

Permitam-me acrescentar que isto é tipo escolher entre uma noite com a morena Katy Perry ou com a loirinha Scarlett Johansson, ou escolher entre um filme do Tarantino e um do Scorsese, ou ter que optar entre a BMW e Porsche. Tudo material capaz de me pôr a enfiar a cabeça contra um muro.

Fiquei incrédulo

Ao ver o bom velho comparsa Rui Oliveira e Costa dizer que o Sporting “salva a época” no caso de ganhar ao Benfica.  Demonstra bastante acerca do tal complexo de inferioridade que falava Paulo Bento. E da mediocridade. E das baixas expectativas. Talvez não seja apenas azar e mau futebol, talvez seja uma questão de exigência.

É isto que ser português tem de bonito: pode estar soterrado 20m abaixo do solo; mas se souber de alguém a 21m, lá se vai aguentando, que afinal nem está assim tão mal… “Há quem esteja pior!”.  Mentalidadezinha.

Just wondering

Se encontrassem uma daquelas lamparinas para esfregar, em que sai um génio da fumaça, que vos desse uma oportunidade de passar um dia com alguém, ou em algum sítio, a assistir a um qualquer acontecimento ao longo do curso da história, com quem e onde seria?

Quanto a mim, acho que escolhia poder estar presente no Dia D, o do desembarque das tropas dos Aliados na Normandia. Um dos dias mais espectaculares e memoráveis de toda a história. Ver as caras de medo e de coragem, as ordens e as estratégias, a artilharia… Mas bem seguro, dentro de uma cápsula inviolável, a assistir a tudo de perna cruzada. É, sou um bocado cagarolas. Nestas coisas de guerras não gosto muito de facilitar, qu’ele às vezes…

E se o génio me acusasse de ser um gajo com a mania das grandezas e me pedisse para ser mais modesto, lá podia ser estar no Estádio Wankdorf, em Berna, no dia 30 de Maio de 1961. E já podia morrer feliz.

É tudo muito bonito

E gosto muito, palavra de honra que sim. O frio, os cachecóis, as mantas, os pinheirinhos de Natal, as musicolas natalícias do costume… Uma lindeza. Mas estou com saudades de um bom mojito numa esplanada à beira-mar.  E agora, Papai Noel? Como você vai si virá?

Só um Bukowski da vida

– Acabou-se – disse ela. – Não durmo contigo nem mais uma noite.

– Muito bem. Fica lá com a tua rata. Não é assim tão boa.

– Queres ficar tu com a casa ou queres sair? – perguntou ela.

– Fica tu com a casa.

– E o cão?

– Fica tu com o cão. – disse eu.

– Ele vai sentir a tua falta.

– Fico feliz por saber que alguém vai sentir a minha falta.

Levantei-me, meti-me no carro e arrendei a primeira casa que encontrei com um anúncio. Mudei-me nessa noite.

Tinha acabado de perder três mulheres e um cão.

BUKOWSKI, Charles. Correios, Antígona, 1971

Ir ao ginásio ao sábado de manhã

É sempre uma aventura. Encontram-se todos os espécimes de que um habitat pode dispor, e é sempre muito animado.

Temos as velhinhas, que – como toda a gente sabe – têm uma sociedade secreta, altamente perigosa, e que tem como objectivo tomar conta dos tapetes para si apenas, não permitindo que ninguém se aproxime deles. E claro, certificarem-se de que quando de lá saírem passarão o testemunho a outro elemento da seita.

Os clássicos gymaholics, é claro. Aqueles gajos que estão no ginásio a qualquer hora, de qualquer dia. É o gajo cujos amigos já não ligam para o telemóvel – ligam para o ginásio e pedem para chamá-lo ao telefone.

As gordalhufas middle-age, cujo exercício favorito e exclusivo é aquele que trabalha os músculos da boca, da língua, e um pouquinho dos braços e mãos, aqui e ali. Falar, seus pervertidos.

A Velha Guarda, um dos meus favoritos. Este é o espécime que aproveita qualquer horinha para se lançar de casa para fora e para longe da mulher, sedento por apanhar um ‘moço novo’ para com ele reviver os tempos de solteiro, os tempos áureos. Todo e qualquer elemento deste espécime comia gajas que nunca mais acabava, mas de uma violência tal que elas até se atropelavam atrás deles. Mesmo aqueles muito feios e porcos, ‘era só gajas’. Uma alegria. É, ou sofrem todos daquele distúrbio que multiplica as boas memórias e ofusca as más, ou então devo ter sido eu a nascer na altura errada. Mais isso.

O abutre. O abutre é uma raça que se apresenta em pleno ginásio com roupa muito justa, sempre depilado, com gel no cabelo e bem perfumado. Tudo isto faz parte do seu equipamento de caça. Dispondo de um olho de águia, é capaz de identificar uma zebra a dezenas de metros, mantendo-a debaixo de observação até chegar a altura certa de atacar, normalmente com o seu bem característico  “precisas de ajuda com essa máquina?”. Este espécime raramente é visto com um pingo de suor na cara, receando que possa comprometer a sua eficácia.

Depois temos a nossa favorita, a zebra. 70% do corpo à vista, normalmente exibindo uma ou mais tatuagens com motivos populares, como o Tweety ou uma rosa. Restantes 30% cobertos apenas por um calção de licra muito justo e um top em rede verde alface ou amarelo. Maquilhagem é algo que faz parte integrante e indispensável do seu equipamento de treino; também não se percebe porque pinta as raízes do cabelo de preto, quando tinha um cabelo loiro tão bonito. É normalmente avistada perto das máquinas de cardiofitness, seu habitat natural, onde é vista a abanar o rabo no seu característico ritual de acasalamento. Tem um corpo atlético, definido, e detém o recorde mundial de levantamento de gaitas, na categoria indoor. Uma espécie tão bela como perigosa. Tão bela… E tão perigosa.

E por fim, o treinador. Reconhecível principalmente pelo seu sorriso de orelha-a-orelha, que usa para encantar e caçar algumas das zebras, numa luta equilibrada das quais sai muitas vezes ferido ou mesmo derrotado. Esta espécie é paga e tem ordens específicas para cumprimentar, orientar e aconselhar todas as mulheres, e se sobrar algum tempo poderá eventualmente dedicar-se a 10% dos homens, isto se não houver nenhum SMS para enviar. Just his job, nothing personal.

É isto, sempre uma bela experiência sociológica.  Ou patológica.

PS: Por falar em sociologia (socializar, e tal): já viram ali em cima o botãozinho do facebook do NSNQTM? Façam lá um “me gusta”, vai.

Guilty pleasure

Há uma muito pequena possibilidade de que talvez goste minimamente de ver Gossip Girl.

Gajas, what else?

Mas quem raio se lembra de ter um guarda-chuva a combinar com cada um dos casacos? Cada um dos 251 casacos? O que vem a seguir, um telemóvel a combinar com cada camisa? Um carro a combinar com cada par de sapatos? Um cão a combinar com cada cor de cabelo?

Just random me

Ou o momento em que percebes que não fechas bem a porta, que te falta um parafuso, que não jogas com o baralho todo, que fritaste a pipoca: aquele em que te preparas para pôr os cereais na tigela do pequeno-almoço (como todas as manhãs) e vês um pacote de bolachas de chocolate novinho em folha – aquelas com aquela barrinha de chocolate por cima de uma bolacha torrada; com a expressão maquiavelicamente tranquila de um Hannibal Lecter, abres o pacote das bolachas; pensas se vais mesmo fazer isto: sim, vais; enches a tigela com bolachas de chocolate, e acrescentas o leite; comes como se amanhã nunca chegasse.

O maior problema? Foi o melhor pequeno-almoço de sempre.