A propósito dos suíços

The Swiss have an interesting army. Five hundred years without a war. Pretty impressive. Also pretty lucky for them. Ever see that little Swiss Army knife they have to fight with? Not much of a weapon there. Corkscrews. Bottle openers. “Come on, buddy, let’s go. You get past me, the guy in back of me, he’s got a spoon. Back off. I’ve got the toe clippers right here.

Jerry Seinfeld

 

Acho que os suíços são porventura o povo mais invejado do mundo. Ter um exército com melhores gadgets que armas diz muito sobre um país, e sobre a sua forma de estar e ver o mundo.

Acreditam no civismo. Na honestidade, também.O que há de realmente bom nos suíços é que acreditam neles próprios, na sua bandeira, acreditam nos seus sistemas e nos seus princípios. Mesmo que não estejam em sintonia, assumem a sua diferença. Acreditam no seu sistema bancário e na sua moeda, o suficiente para mantê-los isolados do resto do mundo ocidental.

Acreditam nas suas tradições, também. Nos seus queijos e chocolates, dos melhores do mundo. Nos seus canivetes, os melhores do mundo. Acreditam nos seus relógios, os melhores do mundo. Aliás, os relógios suiços são um trademark tão forte que as marcas americanas se mudam para a Suiça, para poderem dizer que o seu relógio é “Swiss Made”, como aconteceu no caso da Hamilton.

Talvez um dia possamos, nós portuguesinhos-desenrascados, assentar a nossa cabeça no sofá e pensar que também nós temos as nossas trademarks valiosas. Os produtos algo explorados – pastel-de-nata, vinho do Porto, cortiça, até os sabonetes. Os menos explorados – vinhos do Douro ou Alentejo, a cerâmica e olaria, os linhos, os trajes e peças artesanais regionais do Minho, do Alentejo, das Beiras. A nossa gastronomia, sabores de tantos anos a bem cozinhar e bem comer. E devemos pensar nisto numa óptica de exportação, mas também de atracção.

Irrita-me que se pense e se promova institucionalmente o turismo português apenas na ideia do “All-Garve”, onde se pode comer e beber barato, jogar golfe barato e ir para a praia. “Então e cultura?” – diz o pessoal por essa Europa fora – “Então e cidades como Lisboa, Coimbra, Porto, Braga, Viana do Castelo e zonas como o Douro Vinhateiro ou as planícies ribatejanas, não têm nada para oferecer?” – perguntam. Todos nós sabemos que sim – ou devíamos saber. Mas não oferecemos, não convidamos. E se não convidamos, poucos ou nenhuns aparecem.

Portugal, mais que uma crise económica, atravessa uma crise de valores e uma crise de identidade. A globalização fez fervilhar o interesse por tudo o que é estrangeiro, por tudo o que não é português. O português é parolo, é saloio, não fica bem na fotografia social. Ir visitar a província de Champagne é giro, ir visitar o Douro Vinhateiro é parolo. Andar a cavalo no Ribatejo é saloio e embaraçante, mas andar a cavalo noutro país qualquer é uma experiência única. Ir visitar as aldeias transmontanas não é facebook material! Mas ai se fossem aldeias croatas ou austríacas… Era um álbum no facebook, café em casa para mostrar as fotos aos amigos, e relatos consecutivos durante semanas a fio. Porque toda a gente sabe que no estrangeiro é que estão as coisas boas e as coisas interessantes.

Se o Pão-de-Ló de Ovar fosse francês, havia cá gente disposta a pagar 50 ou 75 euros por um, não duvidem disto. E se o Vinho do Porto fosse francês ou inglês, meus amigos… Era ouro. Pois bem, assim é só prata… “É bom, mas há melhor…”

10 thoughts on “A propósito dos suíços

  1. Mam'Zelle diz:

    Olha, gostei bem da tua lengalenga, de que os outros têm orgulho no seu país e nós não, que nós também temos coisas boas (é verdade, se não existissem os pastéis de nata a minha vida era bem menos interessante) e tudo e tudo.
    Mas uma coisa é certa, tudo o que é francês é melhor e mais chique e mais valioso. Temos pena. Mas a verdade é para ser dita ;p

    (Agora, só um tico mais a sério, quando o português perder o hábito de, para vender melhor, colocar nos seus produtos “tipo francês” e outras coisas do género, talvez seja levado – ele também – mais a sério…)

  2. Tens toda a razão no que dizes. Subscrevo completamente. E a mudança tem de partir de nós, portugueses. Não podemos esperar eternamente pelo reconhecimento internacional, enquanto não formos nós a achar que o nosso vinho é do melhor, que a nossa gastronomia é das mais espetaculares, etc. E por falar nisso, nunca compreendi por que motivo a cozinha italiana e a francesa são assim tão conhecidas a nível internacional, chegam a ser uma referência e ninguém liga nenhuma ao nosso cozido à portuguesa, às sardinhas na brasa, ao cabrito de Lafões, etc etc. Os estrangeiros acham muito engraçadinha a nossa gastronomia, mas não a reconhecem a lado-a-lado com outras de renome mundial. Não compreendo. Ou se calhar até compreendo.

    xx

  3. POC diz:

    Grandíssimo post.
    De acordo.

  4. Eva Maria diz:

    Os Suiços estao claramente overrated!

  5. Se antes eramos vistos como um cantinho de Espanha, agora devemos ser uma colónia alemã… A mudança de mentalidade tem de partir de nós, de dentro para fora e não me parece que isso vá acontecer num futuro próximo!

    (Eu serei eternamente grata aos suiços pelos chocolates :D)

  6. Caro Tio Velanoquetemetes:
    Olhe que o Douro vinhateiro não é nada tido como parolo! Acho até que virou queque. E conheço vários estrangeiros (convidados internacionais lá na Universidade) que vêm com o propósito expresso de o visitar. Por outro lado, basta pensar no Vintage House (no Pinhão) e no Solar da Rede (pousada de Port.) para ver que o turismo não anda a dormir por ali.🙂
    Cumptos.

  7. carol diz:

    Sem dúvida 100% verdade e já o digo há uns bons anos. Por aqui pássamos a fazer a grande maioria das férias cá dentro, a conhecer o país. Mudar-me para o Norte ajudou, é um facto, eu passei a conhecer mais do norte ele passou a conhecer mais do sul. Temos um país lindíssimo mas muito mal aproveitado e divulgado. Mas o melhor? Depende muito de nós mudar esta ideia🙂

  8. Na gastronomia estamos todos de acordo!😉

    Não é que o Douro não comece a ser reconhecido (e por alguma coisa falei no Douro), até porque tem havido um progresso nesse sentido; tal como o turismo urbano tem aumentado, pelo menos no Porto e Lisboa – graças aos benditos vôos low-cost. Só que Portugal é muito mais que isto, e contra mim falo porque não conheço nem metade do que temos para oferecer.

    Criamos já aqui um Manifesto Pró-Português! Vamos já para a rua reivindicar e tudo! eheh

  9. Garcia diz:

    Totalmente de acordo.

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