Acordo do sono

E tenho a cabeça zonza, sóbria mas zonza. Talvez tenha falado demais ou pensado de menos, sei bem que não posso abusar de nenhum mas nunca aprendo. Mas… Mas onde porra estou eu, e como vieram cá parar estar pregas ridículas, este peso de chumbo sobre os meus ombros? Mas que raio, alguém viu onde deixei o outro fato que trazia, o do puto de cabelo rapado? Esse que fumava cigarros perfumados retido num banco do pátio a ver o mundo passar em frente aos seus olhos, ao embalo suave do post-rock? Onde param os amores para-toda-a-vida-durante-cinco-dias? E para que lado está o miradouro de onde posso ver as minhas musas, as que sempre passam aos 15 segundos do toque da campaínha? Onde foi todo o mundo afinal? Está escuro e não consigo ver. Abro os olhos, esfrego mas não consigo ver para além deste metro quadrado. Onde estou eu? Alguém me trouxe a este cubículo imundo, consigo sentir de longe o cheiro sujo de papéis carimbados e números com mais de três algarismos. Não posso cá ficar, desculpem mas tenho que ir já. Alguém me tire daqui imediatamente, preciso de voltar para o meu banco do pátio. Preciso de voltar para a minha cabine de observação, preciso de ver o mundo correr à frente dos meus olhos porque preciso disso como do ar que respiro. Preciso do meu caderno de sarrabiscos, alguém mo traga! Preciso de me sentar no meu banco e rever todas as minhas teorias sociais e sociológicas, passar os olhos pela origem da vida e dos sentimentos, e bem – não posso esquecer que tenho na minha mão o poder de mudar o mundo. Preciso das minhas teorias e ironias de volta, deixem-me sair daqui. Preciso de voltar a saber o que penso, o que digo e para onde vou. E de saber como ir. Levem-me de volta aos meus pensamentos, levem-me de volta aos meus sonhos, levem-me de volta já! Nem sei porque de lá fui sair, talvez afinal devesse nunca ter deixado o pátio nem querido mudar o mundo. Talvez tivesse sido mais sensato ter simplesmente ficado de longe, observando e analisando como sempre, registando notas mentais sobre a demência e hipnose de um exército que se arrastava e pairava à minha frente como nevoeiro, nevoeiro quase como nevoeiro comum, só que apenas nevoeiro que não se via. Eu via, ele é que não se via a si próprio. E agora também não consigo ver, está escuro e não consigo ver. Abro os olhos, esfrego… E continuo a não ver.

4 thoughts on “Acordo do sono

  1. Maria Misteriosa diz:

    Excelente texto demonstrativo de depressao onde so nos proprios podemos sair dela porque somos nos que criamos as amarras que nos prendem. Mania de nos armarmos em aranhas, criamos teias so que depois ficamos embrulhados nelas. Temos que exercer a nossa Vontade…sempre!

  2. Eva Maria diz:

    NSNQTM deixaste-me extasiada com um texto tão brilhante mas ao mesmo tempo preocupadíssima contigo. Todos temos dias onde esfregamos os olhos e nao vemos nada sem ser dias turvos mas isso passa. Só não podemos valorizar🙂
    Estou sempre aqui para ti!
    Qualquer coisa vem rir-te ao paraíso !

    Beijinhos apertadinhos

  3. O texto está brilhante mas é um pouco preocupante…
    Calma, um dia de cada vez…

  4. Tenham lá calma, foi só uma hora e meia de melancolia… Ainda estou cá e sou o mesmo de sempre :))

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