Monthly Archives: Fevereiro 2013

E o “para sempre” é mesmo para sempre?

Marina Abramovic é uma artista plástica e performer, por sinal bastante conhecida e bastante controversa. Ulay é também um artista plástico e performer, sobretudo conhecido pelos anos em que passou com Marina.

Nos idos 70s, Marina conheceu, namorou, trabalhou e viveu com Ulay, com quem partilhou 13 anos de performances artísticas e de amor, vivendo ambos numa carrinha mundo fora. Um dia decidiram tomar rumos diferentes, tendo por então acordado entre si percorrerem a Muralha da China, começando um em cada extremidade até se encontrarem a meio, para partilharem um último abraço e seguirem as suas vidas. Depois de 2.500km percorridos, cada um, lá se encontraram a meio, cingindo-se apenas a partilharem um “adeus” para sempre.

Já em 2010, e quando Marina é já muito famosa e admirada, o Museum of Modern Art de Nova Iorque exibe uma espécie de best of da sua obra. No local, Marina partilha um minuto de silêncio com cada pessoa que se sente a sua frente. Inesperadamente, e sem o conhecimento de Marina, sentou-se Ulay.

E então, aconteceu isto. A carga emocional sente-se, transmite-se e materializa-se como uma agulha afiada furando à face da pele. Um momento tremendo.

Ou é de mim…

Ou esta merda do Harlem Shake vai ser uma epidemia ainda pior que a treta do Gangnam Style. Boa cena, vamos lá abanar o corpo como se estivéssemos a sofrer um ataque epiléptico. Muito boa cena. Divertidíssimo. Encantador, refrescante, admirável.

É uma merda. Chamem-me serious cat, chamem-me chato, mas continua a ser uma merda.

Perguntas e respostas: edição marfim

No seguimento deste post da Lia, pus-me a reflectir um pouco sobre relações, gajas, vidas e casamentos. Diz então a querida Lia, a certo ponto, que é invadida por algumas perguntas aparentemente sem resposta. Aparentemente. O bravo Primo vai responder, sim?

 

Pergunta nº 1: Ter uma relação extra com alguém não vai fazer com que eu relegue o meu marido para 2º plano?

Não. No máximo vai fazer com que ele possa apanhar uma rádio da Nova Zelândia ou que possas usá-lo como estendal. Julgo que o marido não fica necessariamente para 2º lugar – pode até vir a ganhar com isso – o que fica definitivamente para segundo lugar é a relação, o compromisso que assumiram um dia. Costuma dizer-se que “coração que não vê é coração que não sente”, e se ele nunca chegar a saber de nada, nunca se sentirá de forma alguma prejudicado. Quem morre mais um pouco é o compromisso, o respeito. E a nisto a consciência a dar de si, a cada passo. E o medo de ser descoberta, quando reparas que deixaste pontas soltas e começas a entrar em paranóia.

 

Pergunta nº 2: Em que é que isso vai apimentar a minha relação?

É a velha teoria da massa e do arroz, never heard of it? É como passares anos a comer arroz, podes até adorar arroz mas “que bem que te sabia uma massa” depois de tanto arroz… Até voltavas a comer arroz com mais vontade do que nunca. Capisce?

 

Pergunta nº 3: Será que estamos tão mal de valores que precisamos de trair para nos sentirmos bem?

Infelizmente não me parece que alguma traição faça quem quer que seja sentir-se bem, a não ser que seja por vingança ou que parta de alguém que não recebe amor e bons tratos de quem é suposto receber. Mas nem assim me parece realmente positiva. Há realmente alguns benefícios (essencialmente carnais) a obter de um pulo na cerca, mas bem-estar não me parece um deles.

 

Pergunta nº 4: Vivemos numa sociedade tão cheia de tabus que não sejamos capazes de CONVERSAR com a pessoa que temos ao nosso lado e dizer-lhe o que está mal e precisa de mudar, mas temos coragem de sair dos limites?

Vivemos na sociedade do descartável, na sociedade da fast food e da obsolência programada, na sociedade do ego – egoísmo e egocentrismo. Como li aqui há tempos, “é sempre mais fácil comprar novo que reparar”. Já ninguém tem paciência para reparar. E isto, minha amiga Lia, é isto que está mal na sociedade e nas pessoas. Já ninguém tem tempo para nada, ninguém tem tempo para trabalhar a relação, ninguém tem tempo para sentar e conversar sobre a relação, ninguém tem tempo para uma foda com calma, sem relógios nem compromissos. Então quando alguma coisa se estraga, nós compramos novo. Não arranjamos, não reparamos, não tentamos perceber qual é o problema. Encostamos aquela merda, estragada, e começamos a usar o novo que realmente funciona e é tão mais porreiro e funcional. Até que chega o dia em que começam a aparecer os defeitos neste novo, que afinal também os tem, e deixa de ter piadinha. Raio de comando da TV, não dá sequer para ir ao teletexto. Ou que eu tinha antes, esse é que era porreiro. Mas avariou e deitei-o fora…

O Ponto da situação

– Ontem foi dia de S. Valentim, e passei o dia a vomitar – um vómito por cada vez que entrava no Facebook. Tanta bacorada, tanta hipocrisia e tanto show-off que quando dei por mim até cuspi uns quantos arco-íris.

– Hoje é sexta-feira, mas como só comecei a trabalhar na 4ª nem parece fim-de-semana.

– Estou em posição de ruptura de stock de livros, coisa que odeio. Funciona mais ou menos da mesma forma que com o tabaco: quando tenho até pode nem me apetecer; quando por alguma razão não tenho, dá-me um apetite feroz e imparável (acho que isto terá algum nome bem recortado e bem polido nos cadernos da Psicologia,  enquanto não descubro qual, considero apenas aquilo a que me habituei a chamar “um parafuso a menos”).

– Hoje sinto-me extraordinariamente bem. Isto porque vim vestido todo de preto, coisa que adoro. Nunca vos disse, mas tenho um alter-ego que é inspirado no Corvo do Brandon Lee. Um dia apresento-vos.

Este carnaval

Nem um pé fora da porta. Petiscar, conversar, fumar, ler, foder e ficar simplesmente deitado a mirar o tecto vazio. O dolce fare niente de que se faz o todo. Eu sei que parece (e é) cliché, mas é por isso que os clichés são clichés, exactamente por funcionarem tão bem.

Bom feriado, meninas e meninos. Enjoy!

Contra-natura

É eu acordar ao sábado antes da hora de almoço. Mas mais contra-natura ainda é eu me encontrar bem-disposto, tendo acordado ao sábado antes da hora de almoço. Um sábado atípico, este.

Fire in the hole

Tenho um talento inato para acender lareiras. Qualquer dia viro incendiário, daqueles que depois vão para o tribunal dizer que não estavam no seu perfeito juízo. E se for preciso até dou cambalhotas, para provar o meu ponto.

Nunca gostei de crucificações

E como tal, incomoda-me a perseguição a Fernando Ulrich. Isto é, trata-se notoriamente de uma pessoa sem grande capacidade de comunicação, alguém que diz o que pensa sem ter o cuidado de pensar nas repercussões. 

Fui o primeiro a censurar Ulrich quando disse que o país aguentava mais austeridade. E fui mais uma vez o primeiro a apontar o dedo quando voltou à carga, fazendo pior emenda que soneto. Exprimiu-se pela sua própria imagem, sem olhar aos sacrifícios que muitos portugueses fazem para pôr comida na mesa, da primeira vez. Da segunda, tentou explicar que o “aguentar” a que se referia, não significava forçosamente “aguentar em boas condições”. Eu entendi as suas palavras, na medida em que quis exprimir que se a economia por aí se direccionar, que remédio temos que aguentar como se pode. Simplesmente não o disse da melhor forma, nem tem plena consciência que não é a pessoa certa para o dizer, visto estar ele no comando de um banco que recebeu dinheiro que devia ter sido usado em fins mais nobres e úteis. E visto receber ele um ordenado mensal que a maior parte dos portugueses não ganha durante uma vida de trabalho. É certo que sim. 

Mas dará isso o direito a pessoas como Ana Drago, que até tenho em boa conta, de questionar o ordenado que ele aufere? Até onde sei, um ordenado não é negociado unilateralmente, tem que haver alguém disposto a pagar o que alguém quer receber. E se o BPI aceitou pagar-lhe a quantia em questão, quem somos nós para pôr isso em causa? Quantos de nós recusaríamos um ordenado assim, se nos fosse proporcionado? Porque raio temos então que julgar, apontar dedo, julgar? Faz-me espécie e faz-me confusão.

E sim, odeio verdadeiramente aquele último pontapé que todos insistem em dar no corpo moribundo que, estendido no chão, já foi castigado pelas suas acções. Porque é sempre mais fácil apontar o dedo ao vizinho que olhar para o próprio umbigo.